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O que é Diálogo Inter-religioso?

Texto: Profa. Dra. Fernanda F. Coelho

A nossa realidade é atravessada pela convivência com outras pessoas. Ao contrário da “apropriação” do “outro” por meio de uma confrontação apologética e da desqualificação, tentar separar o “eu” do “outro” permite uma tentativa de compreensão destituída de pré-valoração. Essa capacidade de reconhecer que, de fato, há uma alteridade que ultrapassa completamente a nossa própria subjetividade nos leva a reconstruir nossos códigos de sentido, religiosos, culturais etc.

O contexto atual é permeado de diversidade religiosa. A diminuição da centralização de poder nas mãos de religiões dominantes, promovida pela secularização, cada vez mais arraigada em sociedades globalizadas, desembocou no pluralismo religioso que, por sua vez, se tornou um desafio como novo paradigma teológico.

Dentro de um contexto de diversidade religiosa, Roberlei Panasiewicz aponta o pluralismo de fato e o de princípio, nos quais o primeiro produz reconhecimento da diversidade, mesmo que sem legitimação. Para o autor, “o pluralismo de princípio, mais do que reconhecimento da história, doutrinas, narrativas sagradas e concepções de verdade do outro, o compreende pertencendo ao Mistério. Todas as religiões e espiritualidades são, portanto, assumidas nesta interioridade”.

As pontes construídas pela busca por paz e reconhecimento das diferenças quando do encontro das religiões, possibilita uma ampliação das relações humanizantes e humanizadoras.

É neste contexto que a formação dialógica pode se deslocar das relações de coisificação para uma real abertura de um “outro” e para uma relação em que o acolhimento não se transforme em dominação, mas sim em verdadeiro diálogo. Tendo isto em mente, Panasiewicz aponta dois objetivos principais do diálogo inter-religioso, quais sejam, estimular a reflexão em um nível interno para a ampliação de concepções da revelação e/ou manifestação do mistério, e produzir respostas éticas apropriadas contextual e historicamente em um nível externo.

O grande desafio está em deslocar o foco desta relação de uma produção de verdade sobre o religioso para a própria subjetividade da relação.

No caso brasileiro, sabemos que a identidade brasileira foi construída com ampla participação da Igreja Católica Romana. Até a formação do Estado Laico brasileiro, a ação e intermediação da Igreja Católica influenciou amplamente o processo histórico da formação do país.

Sendo assim, resgatar a identidade brasileira por meio da pesquisa teológica e do fortalecimento da estrutura de conhecimento, no Brasil, só pode ocorrer por meio do diálogo inter-religioso entre o catolicismo e outras formas de religiosidade que se desenvolveram concomitantemente ao processo de seculariazação e laicização do país.

ARAGÃO, Gilbráz; PANASIEWICZ, Roberlei; RIBEIRO, Claudio de Oliveira (orgs.). Dicionário do Pluralismo Religioso. São Paulo: Recriar, 2020.
PANASIEWICZ, Roberlei. Pluralismo religioso contemporâneo. Diálogo inter-religioso na teologia de Claude Geffré. São Paulo: Paulinas; Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2007.
PIERUCCI, Antônio Flávio. Secularização em Max Weber: da contemporânea serventia de voltarmos a acessar aquele velho sentido. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, vol. 13, n. 37, 1998, p. 43-73.

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